Odontologia Hospitalar tem a prerrogativa de salvar vidas

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A Odontologia é uma das profissões da saúde reconhecidas em nosso país e encarrega-se de tudo que é relacionado ao sistema estomatognático – órgãos e tecidos da cavidade bucal, crânio, face e pescoço.

A primeira prática documentada foi no Egito, há mais de cinco milênios, no entanto encontramos vários relatos interessantes, como o de Noah Gordon em “O Físico”, onde se pode ter uma noção da multiplicidade de funções que os barbeiros cirurgiões exerciam, desde o corte de cabelos e barba, aplicação de ventosas, sangrias, amputações até tratamentos dentários, num trabalho itinerante por cidades da Inglaterra, no Século XI, profissão esta que para época era comparada a de um ‘’médico de tudo um pouco’’.

No Museu do Cairo, na sala das múmias, é possível constatar que a “causa mortis” de muitas delas foi o abcesso dentário, destacando historicamente a importância dos cuidados com a saúde bucal. É fato que a boca não se dissocia do todo que representa o ser humano e assim ele deve ser compreendido e tratado, pela integração de sistemas e a complexidade da manutenção da homeostase dos mesmos.

Prevenção vem ganhando espaço e alcança a esfera legislativa

O ser humano necessita de cuidados médicos e odontológicos por toda a vida, uma vez que não se aceita mais a ideia de tratamentos apenas curativos - a prevenção, que se antecipa aos fatos minimiza as consequências de desajustes orgânicos e vem ganhando espaço cada vez maior no quesito promoção de saúde. Volto a dizer que a boca não se dissocia do todo e esta compreensão transcende o ambiente da ciência e alcançou a esfera legislativa. Prova disso são os Projetos de Lei mencionados a seguir: Projeto de Lei 2776 de 2008 de autoria do deputado Neilton Mulin, que torna obrigatória a presença do cirurgião-dentista na UTI; no município de São Paulo a Lei 16.860 de 9 de fevereiro de 2018 do vereador Gilberto Natalini, que institui a Política Municipal de Proteção à Saúde Bucal da Pessoa Hospitalizada; o PL 363/2011 que torna obrigatória a presença de cirurgiões-dentistas nas Unidades de Terapia Intensiva de autoria do deputado Willian Dib (SP), ora apensado ao PL 2776 B do deputado Neilton Mulin. Ainda, tramitou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o PL 363/2011 que torna obrigatória a presença de cirurgiões-dentistas nas Unidades de Terapia Intensiva de autoria do deputado Willian Dib, ora apensado ao PL 2776B do deputado Neilton Mulin.

Confúcio, Sec. V aC: “Boca é a porta de entrada de todas as doenças”

A Odontologia Hospitalar é uma realidade desde sempre, mas que vem ganhando espaços cada vez mais amplos, já que não é possível pensar em saúde geral sem levar em consideração a saúde bucal. O sábio chinês Confúcio, no Século V A.C., referia-se à boca como “a porta de entrada de quase todas as doenças”. Várias doenças têm origem em infecções buco-dentárias e as doenças sistêmicas têm manifestações clínicas na cavidade bucal, antes ou durante a sua sintomatologia.

Em pacientes hospitalizados, seja no leito ou na Unidade de Terapia Intensiva, o biofilme tem um papel de destaque na instalação de doenças secundárias à doença de base, podendo levar à sepse, quadro este que mata uma pessoa por segundo no mundo. Pode estar associada a qualquer foco infeccioso, inclusive o bucal, que funciona como porta de entrada de microrganismos, sendo a pneumonia responsável por 50% dos casos de sepse nos levantamentos epidemiológicos.

A cavidade oral é um local que abriga muitas populações microbianas e o biofilme de bactérias, vírus e fungos principalmente nos dentes, língua, e mucosa jugal, que podem ser disseminados para outras partes do corpo, além dos pulmões, cérebro, coração, articulações, entre outros.

Por esta razão, os cuidados com a higiene de pacientes internados é de suma importância para evitar graves complicações, além de promover bem- estar ao mesmo. A severidade da doença periodontal está relacionada a vários fatores, entre eles a patogenia da microbiota e a imunossupressão desses pacientes que se encontram em estado de vulnerabilidade imunológica.

Toda complicação oriunda de infecções tem implicação na sobrevida

Outra situação frequente encontrada nos hospitais é a de pacientes que tem repercussão bucal aos tratamentos utilizados para combater a doença de base, entre eles o mais conhecido a quimioterapia, que repercute como mucosite oral. Quadro bastante doloroso e muitas vezes impeditivo de alimentação, requer atuação imediata da equipe odontológica, para por meio da fotobiomodulação, remitir os sintomas muito dolorosos e que oferecem risco de infecções secundárias.

Toda e qualquer complicação oriunda de focos infecciosos bucais tem grande implicação na sobrevida, recuperação e desospitalização precoce do paciente. Um foco pode demandar um tempo maior de internação – no caso da pneumonia nososcomial de 7 a 14 dias, aumentando a necessidade da medicalização, exames complementares, interferindo na qualidade de vida, podendo até levar o paciente a óbito.

Odontologia Hospitalar inserida no SUS? Mais uma proposta...

Por todo o exposto, um grande movimento das equipes de cirurgiões- dentistas que atuam em hospitais em todo Brasil teve início em 2011 e vem sendo realizado no sentido de corroborar para a prevenção e cura de doenças que são desencadeadas por focos infecciosos.

Esses profissionais foram protagonistas da luta que culminou com o reconhecimento da Habilitação em Odontologia Hospitalar pelo CFO, em 2015, com o intuito de preparar os cirurgiões-dentistas para atuação dentro dos hospitais.

Recentemente o Ministério da Saúde publicou a Portaria 1.023 de 23 de abril de 2018, que institui o Grupo de Trabalho de Odontologia Hospitalar com a finalidade de propor a elaboração de ações e estratégias sobre a matéria, além de avaliar e propor a revisão e criação de normas relativas à regulamentação da Odontologia Hospitalar, orientar a criação da linha de cuidado do paciente que necessita de atendimento hospitalar e as diretrizes para sua organização na Rede de Atenção à Saúde no âmbito do SUS. Além disso visa propor protocolos e diretrizes para a implementação da Odontologia Hospitalar e recomendar a incorporação, inclusão, exclusão e alteração de procedimentos odontológicos na Tabela de Procedimentos, Medicamentos, Órteses e Próteses e Materiais Especiais do SUS voltados aos pacientes que necessitem de atendimento em ambiente hospitalar no SUS.

Em 2011 também foi desenvolvido no Estado de São Paulo o Manual de Odontologia Hospitalar da Secretaria de Estado da Saúde, que muito colaborou para a implantação dos serviços de odontologia hospitalar nos hospitais da rede.

Profissionais de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (CTBMF): papel edificante nos hospitais do Brasil

Faço um destaque com louvor aos profissionais que atuam na área da Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais, especialidade que tem como objetivo o diagnóstico e o tratamento cirúrgico e coadjuvante das doenças, traumatismos e anomalias congênitas e adquiridas do aparelho mastigatório e anexos, e estruturas craniofaciais associadas, que há muitas décadas também vem realizando um trabalho edificante nos hospitais de todo país.

A Odontologia Hospitalar visa ampliar a atenção e os cuidados odontológicos aos pacientes em ambiente hospitalar, seja na UTI, leito, ambulatório ou Home Care, prevenindo e tratando das doenças da cavidade bucal, diminuindo a quantidade de patógenos com potencial de desencadear infecções sistêmicas e que coloca em risco a vida desses pacientes.

Essa atenção corrobora com a valorização da nossa profissão, demonstra que a atuação do cirurgião-dentista tem a prerrogativa de salvar vidas e coloca a Odontologia e os cirurgiões dentistas no lugar de destaque que eles merecem.

Fonte: Jornal Odonto. Disponível em: http://www.jornaldosite.com.br/materias/artigos&cronicas/anteriores/marialuciazvarellis/artmaiialuciazvarellis247.htm. Disponível em: 14/08/2018.